Li, mas teria sido melhor ver o filme do Pelé
- Equipe Rede Essência

- há 4 horas
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Lembra daquele episódio clássico do Chaves em que ele está no cinema, assistindo a um filme ruim, e solta a frase: "Acredito que teria sido melhor ver o filme do Pelé"? Pois é. Foi exatamente essa a sensação que tive ao fechar "A Prateleira do Amor: sobre mulheres, homens e relações", da Valeska Zanello (Apriss, 2022). Não quero ser radical, mas está entre os piores livros que já li na vida.
O que encontrei foi, na prática, um panfleto doutrinário cujo objetivo parece ser único e exclusivo: convencer o leitor de que o relacionamento heterossexual é, por definição, problemático e que qualquer alternativa a ele é necessariamente superior.
A expectativa, pelo título, era encontrar uma reflexão honesta sobre relacionamentos, suas dinâmicas, armadilhas e possibilidades. O que encontrei foi, na prática, um panfleto doutrinário cujo objetivo parece ser único e exclusivo: convencer o leitor de que o relacionamento heterossexual é, por definição, problemático e que qualquer alternativa a ele é necessariamente superior.
Alguns trechos me deixaram em estado de choque. Na página 70, por exemplo, a autora escreve: "Por isso, é importante destacar que subverter a orientação heterossexual não necessariamente leva a uma desconstrução do dispositivo amoroso, como entre meninas e mulheres lésbicas. Nesse último caso, é comum que tenhamos o encontro de dois dispositivos amorosos. A qualidade da relação estabelecida é diferente, pois geralmente há um dar e um receber mais simétrico."
Sério? Então toda relação lésbica é naturalmente mais simétrica e equilibrada que qualquer relação heterossexual? A afirmação é tão generalizante que beira o absurdo. Relações humanas, de qualquer orientação, são complexas, e reduzi-las a uma fórmula moral ("hetero = desigual", "lésbica = simétrica") é simplificação pura.
O livro também introduz termos como "letramento de gênero", que me fez refletir se a autora realmente acredita que quem discorda dela é analfabeto, ou incapaz de ler o mundo corretamente até que aceite suas teorias. É uma retórica que não convida ao diálogo; ela impõe uma leitura única da realidade.
Outro ponto que me incomodou está na página 83: "O fenômeno da feminização das profissões ligadas ao cuidado relaciona-se a uma precarização dos salários e das condições de trabalho.”
Aqui o que me chamou atenção foi a lógica implícita: o ato de cuidar, historicamente associado às mulheres, é tratado quase exclusivamente como uma mercadoria desvalorizada pelo capitalismo. Como se cuidar só tivesse valor se fosse remunerado, e como se o problema fosse o capitalismo ter "roubado" o valor do cuidado, em vez de o cuidado ser, por si só, uma dimensão humana fundamental, independentemente de salário. O capitalismo aparece como vilão onipresente, mas a autora não percebe que, ao reduzir o cuidado à questão salarial, ela mesma está operando dentro da mesma lógica mercadológica que diz criticar.
E a contradição conceitual? Essa foi a parte mais difícil de engolir. Na página 90, misoginia é definida como: "o repúdio às mulheres e às qualidades consideradas como femininas." Até aí, tudo bem, é uma definição aceita em boa parte da literatura. Mas na página 103, o mesmo termo é aplicado ao universo gay: "o mundo gay se apresenta como sendo ainda profundamente marcado pela misoginia, na qual gays afeminados são vistos como inferiores."
Ora, se misoginia é repúdio às mulheres, como aplicá-la a gays afeminados. O termo tecnicamente adequado para preconceito contra homossexuais é homofobia. A autora parece saber disso, mas na página 108 radicaliza: "Isto é, na homofobia temos uma misoginia."
É uma confusão conceitual. Ao fundir os dois termos, ela dilui especificidades e cria uma narrativa em que todo preconceito é, no fundo, a mesma coisa, o que impede uma análise precisa de cada fenômeno.
É uma confusão conceitual. Ao fundir os dois termos, ela dilui especificidades e cria uma narrativa em que todo preconceito é, no fundo, a mesma coisa, o que impede uma análise precisa de cada fenômeno. Homofobia tem suas próprias dinâmicas, suas próprias vítimas, seu próprio histórico. Reduzi-la a "uma forma de misoginia" é apagar a experiência de quem sofre homofobia por ser homem gay, e não por ser mulher.
No fim das contas, ao terminar o livro, senti arrependimento. A expectativa ao abrir um livro é que ele amplie horizontes, refine ideias, provoque reflexão. "A Prateleira do Amor" não fez nada disso. Passei as páginas com a sensação de que alguém tentava me empurrar uma visão de mundo pronta, uma lavagem cerebral que, felizmente, não funcionou, porque tenho minhas próprias experiências e convicções.
Fiquei com aquela sensação do Chaves: li, mas teria sido melhor ver o filme do Pelé.
Fiquei com aquela sensação do Chaves: li, mas teria sido melhor ver o filme do Pelé. Pelo menos o filme do Pelé não tentaria me convencer de que só existe um jeito certo de amar, e que todos os outros são, por definição, opressão.

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